
Com cara de arte - 10/04/06
Mostra ‘Pictórica’, que será aberta hoje em duas galerias do Palácio das Artes, retoma a importância da pintura figurativa entre artistas brasileiros de várias gerações
Walter Sebastião (Caderno de cultura /Jornal Estado de Minas)
Pinturas, no plural mesmo. Realistas, alegóricas, românticas, simbólicas, abstratas. É assim a exposição Pictórica, que vai ser aberta hoje, às 20h, nas galerias Arlinda Corrêa Lima e Genesco Murta. Vão ser mostrados trabalhos de Alan Fontes, Ana Paula Torres, André Burian, Décio Noviello, Eduardo Miotto, Erik Fontes, Fernando Lucchesi, Hildelbrando de Castro, João Maciel, Léo Brizola, Leonora Weissmann, Liana Valle, Marco Paulo Rolla, Marco Túlio Resende, Orlando Castaño, Rodrigo Freitas e Selma Andrade.
“A mostra é realização de um velho sonho de ver uma exposição mostrando os vários caminhos da pintura, que reunisse vários pintores, de diferentes gerações”, conta Luiz Henrique Vieira, pintor, participante e curador da exposição. A idéia, conta Luiz Henrique Vieira, surgiu a partir de convite para auxiliar na organização de exposição que cobrou dele pesquisa sobre o assunto e até viagens a outros estados em busca de jovens autores, deixando o desejo de organizar evento que apresentasse algo diferente, novo, além do mostrado na programação habitual do circuito. O resultado, explica, sinalizou que a prática da pintura anda às voltas com os mais diversos caminhos. Como por exemplo, observa o curador, o interesse pela figuração, em vários registros: do naturalismo (“ainda que de clima onírico”) até ilustrações despretensiosas do cotidiano; de imagens movidas pelo humor cáustico, debochado e desconcertante ao uso da metalinguagem, passando pelo resgate de motivos como o retrato e a paisagem. “É a figuração como instrumento de investigação do humano, mais próxima da compreensão do espectador, com gosto pelo uso da cor, das matérias, do desenho, mas que é algo mais do que demonstração de nossas habilidades”, observa Luiz Henrique Vieira, dizendo que se trata de apresentar visões lúdicas, dramáticas, debochadas e afetivas sobre motivos como o cotidiano, a solidão, o erotismo, a cidade, a morte, o feminino e o masculino.
O curador polemiza com a abstração: “É inútil ficar fazendo pintura abstrata, porque ela se torna decorativa. Ela fica no formal, não é instrumento de investigação filosófica para este momento, quando há necessidade de reflexão. Vê os mesmos motivos nas exposições internacionais que têm aberto espaço para a linguagem pictórica. Para Luiz Henrique a pintura abstrata tende ao decorativo Além da figuração, há outros aspectos da exposição que, para Luiz Henrique Vieira, merecem atenção: “O mais importante é observar a diversidade de possibilidades da pintura atual, tanto no que se refere a temas quanto a técnicas. E observar a técnica, o uso das ferramentas como o pincel, da cor, da luz da superfície, do tratamento dado a pintura. É exercício que depura o olhar”, garante o artista. Esta é a terceira curadoria de Luiz Henrique Vieira (já fez Eu imito quem e Voluta). Ele avisa que a função dá muito trabalho e que nem se considera curador – “sou artista e quero continuar sendo”–, mas que ocupou novamente esse lugar pelo desejo de ver uma exposição deste porte. “O prazeroso foi entrar em contato com os artistas, visitar os ateliês e discutir os trabalhos. Foi um exercício de compreensão”, avalia.
PIONEIRO DO POP - O artista veterano de Pictórica é o mineiro Décio Noviello, de 76 anos. É figura importante da arte de Belo Horizonte, pela visualidade decididamente pop, urbana, de alta definição, praticada pioneiramente. O artista olha com desconfiança o rótulo: “Sou uma pessoa que faz o que sente, não estou em escola pictórica nenhuma”, afirma. Conta que, em 1968, quando realizou seus primeiros trabalhos, nem sabia da existência da pop-art, apenas “usou forma de expressão que estava nos outdoors”, seduzido por linguagem “espontânea e contemporânea” que usou para construir mensagens com desenho e cor. “Eu era um neófito em arte e só depois soube que existia um movimento chamado pop”, recorda. As obras – que ganharam repercussão e foram mostradas em várias exposições de importância – eram trabalhos de denúncia política, ecológica, social, “caminho que segui por intuição”. Tudo no clima de contestação do final dos anos 1960, não fosse o criador das imagens um capitão do Exército. “Era uma situação estranha. No meio militar achavam que eu ficava metido em malandragem e, no meio dos artistas, diziam que eu era um gorila”, explica, valendo-se de terminologia de época, usada por estudantes para definir os policiais. Sobre sua linguagem, conta que, com o passar do tempo, somou pintura e gravura, as duas grandes áreas de sua obra. “A pop-art foi importante para abrir mentes e novas possibilidades para a arte. É uma referência básica para todos que fazem arte contemporânea e mesmo quem faz instalação tem influência do pop”, afirma Noviello. Sobre os trabalhos recentes, explica que além de “esteticamente legais”, são mais sociais, ligados “ao que está acontecendo”, como a violência, situação das crianças, tráfico de drogas etc. Com relação aos artistas que admira, cita companheiros de geração: Raymundo Collares, Antônio Manuel e Lótus Lobo.
PRECONCEITO “O importante da exposição Pictórica é colocar a questão da pintura. É linguagem que o meio de arte contemporânea no Brasil tem tido dificuldade de avaliar, mesmo quando eventos internacionais tentam um novo olhar sobre ela”, afirma Marco Paulo Rolla, artista que há mais de década trabalha com a técnica. Ele lembra de protestos recorrentes de vários artistas, eventos e mostras, que estariam, preconceituosamente, pondo à margem a pintura. O mesmo sentimento é manifestado por vários participantes da coletiva. Mais: “É muito saudável a realização desta exposição Ajuda a abrir os olhos das instituições para que elas façam trabalhos assim. Como uma produção como essa pode ter ficado tanto tempo no armário?”, questiona. Além de participar da mostra, ele anuncia para agosto outro evento dedicado à mesma mídia: Pintura além da pintura, programação do Centro de Experimentação e Informação de Arte (Ceia), do qual é um dos criadores e coordenadores, que prevê seminário, ateliê e ciclo de cinema. “O objetivo é tentar refletir por que existe preconceito contra a pintura num contexto como o da arte contemporânea, que tem se aberto para todas as mídias. A pintura, ainda hoje, é o lugar onde a maioria da arte tira os seus conceitos. Não há como negar que ela é a célula-mãe de inúmeros conceitos até hoje repetidos em outros meios”, completa.
Pictórica Coletiva com 18 pintores, abertura hoje, às 20h, Galeria Genesco Murta e Galeria Arlinda Corrêa do Palácio das Artes, Av. Afonso Pena 1.537, Centro, (31) 3237-7399. Aberta de terça a sábado das 9h às 20h, e domingo das 16h às 20h30. Até 30 de abril. Entrada franca.


2 Comments:
VISITE meu ART|BLOG
http://alexandradepinho.blogspot.com
Cumprimentos,
Alexandra de Pinho
Parabéns pela iniciativa de dar voz a pintura, ou melhor, ouvir o muito que a pintura ainda tem pra dizer, pois parece que querem calar de vez com a pintura que cada dia mais, está sendo boicotada dos saloes e dos eventos ditos "contemporaneos".
veja alguns trabalhos meus.
Abraço
Norberta Ribeiro
página web:
http://www.artmajeur.com/norbertasilva
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