Pictórica - a exposição / the exhibition

PARA MELHOR COMPREENSÃO, SUGIRO QUE ESTE BLOG SEJA VISTO DE BAIXO PARA CIMA. Registro da mostra que reuniu trabalhos dos artistas Alan Fontes, Ana Paula Torres, André Burian, Décio Noviello, Eduardo Miotto, Erik Fontes, Fernando Lucchesi, Hildelbrando de Castro, João Maciel, Léo Brizola, Leonora Weissmann, Liana Valle, Marco Paulo Rolla, Marco Túlio Resende, Orlando Castaño, Rodrigo Freitas e Selma Andrade, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, em abril/maio de 2006.

May 01, 2006

A pintura na era da imagem técnica
Lo spirito non ha voce, perché dov´è voce è corpo.
Leonardo

Os recentes debates sobre o retorno da pintura e a série de exposições The Triumph of Painting, organizada pela Saatchi Galery em Londres, a mesma que outrora lançara os artistas de Sensation, colocaram em foco, novamente, a imagem pintada. Poderíamos nos perguntar se essas mostras não correspondem a uma jogada de marketing, afinal o colecionador Charles Saatchi é sócio fundador de uma das maiores agencias de publicidade no mercado global, a Saatchi & Saatchi. Seria possível, também, pensar nas demandas de um mercado cada vez mais conservador, avesso às pretensas inovações da arte dos últimos anos. Afinal, todos sabem que a procura por pinturas nunca cessou, apesar do que as tendências da arte decretassem.
Por outro lado, a plena aceitação da fotografia como arte serviu para esclarecer as imprecisões do meio como depositário de memória da memória. A memória, reminiscência de um passado vivido ou imaginado, é aberta, lacunar, emotiva, afetiva, manipulável. A precisão das imagens técnicas entraria, assim, em conflito com os modos de os homens lembrarem, pois as imagens “indiscutíveis” e nítidas da fotografia não se constituiriam como veículos eficientes para a memória. As imagens pintadas com sua sensualidade material, tátil, identificar-se-iam melhor com as nuanças tonais da memória humana. As deficiências da imagem pintada — ausência de veracidade e conseqüente falta de autoridade testemunhal — lhe permitiriam ativar, através de uma rede de conexões, as imagens residuais que habitam a memória do espectador.
Enquanto a imagem técnica presume captura do instante e identidade indicial com o real, a imagem pintada insiste em perseguir uma constante indefinição, uma perene ambigüidade. O tempo de construção da imagem pintada, feito de riscos, veladuras, empastos, pentimentos, é de longa duração e, como tal, exige do espectador idêntico tempo de assimilação e decantação.
Nesse sentido, não há melhor metáfora da pintura que O retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde. Somente uma imagem pintada, com toda a sua duração temporal, poderia encarnar a perversa mudança do protagonista. O “isso foi” da fotografia permitiria, apenas, obter e manter imutável o instante passado.

Pintar na era da imagem técnica, então, significa pintar num mundo completamente permeado por imagens fotográficas, videográficas, digitais. Um mundo de aparências desconexas e incoerentes no qual a realidade é percebida como um fluxo imagético intermitente e interminável. Atravessada por esse fluxo, a pintura desta era só poderia ser pictórica, ao reivindicar para si, numa forma de engajamento, o virtuosismo da técnica, o poder emotivo da imagem, a supressão, por transgressão, dos paradigmas da alta e baixa cultura e, por fim, o apelo à comoção de todos os sentimentos: da delicadeza do prazer aos abismos da abjeção.

Texto escrito por Maria Angélica Melendi, para ser publicado no catálogo da Pictórica


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