A pintura na era da imagem técnica
Lo spirito non ha voce, perché dov´è voce è corpo.
Leonardo
Os recentes debates sobre o retorno da pintura e a série de exposições The Triumph of Painting, organizada pela Saatchi Galery em Londres, a mesma que outrora lançara os artistas de Sensation, colocaram em foco, novamente, a imagem pintada. Poderíamos nos perguntar se essas mostras não correspondem a uma jogada de marketing, afinal o colecionador Charles Saatchi é sócio fundador de uma das maiores agencias de publicidade no mercado global, a Saatchi & Saatchi. Seria possível, também, pensar nas demandas de um mercado cada vez mais conservador, avesso às pretensas inovações da arte dos últimos anos. Afinal, todos sabem que a procura por pinturas nunca cessou, apesar do que as tendências da arte decretassem.
Por outro lado, a plena aceitação da fotografia como arte serviu para esclarecer as imprecisões do meio como depositário de memória da memória. A memória, reminiscência de um passado vivido ou imaginado, é aberta, lacunar, emotiva, afetiva, manipulável. A precisão das imagens técnicas entraria, assim, em conflito com os modos de os homens lembrarem, pois as imagens “indiscutíveis” e nítidas da fotografia não se constituiriam como veículos eficientes para a memória. As imagens pintadas com sua sensualidade material, tátil, identificar-se-iam melhor com as nuanças tonais da memória humana. As deficiências da imagem pintada — ausência de veracidade e conseqüente falta de autoridade testemunhal — lhe permitiriam ativar, através de uma rede de conexões, as imagens residuais que habitam a memória do espectador.
Enquanto a imagem técnica presume captura do instante e identidade indicial com o real, a imagem pintada insiste em perseguir uma constante indefinição, uma perene ambigüidade. O tempo de construção da imagem pintada, feito de riscos, veladuras, empastos, pentimentos, é de longa duração e, como tal, exige do espectador idêntico tempo de assimilação e decantação.
Nesse sentido, não há melhor metáfora da pintura que O retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde. Somente uma imagem pintada, com toda a sua duração temporal, poderia encarnar a perversa mudança do protagonista. O “isso foi” da fotografia permitiria, apenas, obter e manter imutável o instante passado.
Pintar na era da imagem técnica, então, significa pintar num mundo completamente permeado por imagens fotográficas, videográficas, digitais. Um mundo de aparências desconexas e incoerentes no qual a realidade é percebida como um fluxo imagético intermitente e interminável. Atravessada por esse fluxo, a pintura desta era só poderia ser pictórica, ao reivindicar para si, numa forma de engajamento, o virtuosismo da técnica, o poder emotivo da imagem, a supressão, por transgressão, dos paradigmas da alta e baixa cultura e, por fim, o apelo à comoção de todos os sentimentos: da delicadeza do prazer aos abismos da abjeção.
Texto escrito por Maria Angélica Melendi, para ser publicado no catálogo da Pictórica
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